Guerreiro Ramos

O presente livro é publicado num momento de encruzilhada na sociedade e na cultura brasileiras. Quem não for insensível à ironia dos acontecimentos, decerto entenderá que o processo histórico-social, nos últimos anos e nos dias correntes, é ele próprio a demonstração empírica da inobjetividade de teses dominantes sobre a vida brasileira, até bem pouco acolhidas e propagadas por numerosas pessoas, em nome da ciência social. Ora, a condição de possibilidade da ciência social é a hipótese de que o processo histórico-social é inteligente, ou seja, não consiste numa sequencia absurda de fatos. Portanto, a produção intelectual, no domínio de tal ciência, é testada à luz dessa inteligência que os acontecimentos vão revelando. A distinção, no caso, entre o cientista social e o leigo reside no fato de que aquele tem uma imaginação científica e tecnicamente treinada e, por isso, mais do que o cidadão comum, é capaz de predizer o curso do acontecer e indicar aos homens de ação, aos políticos em particular, o que se poderia chamar de faixas de tolerância da realidade social. Quem disto não for capaz, quem não for capaz de pensar em concreto não merece o título de cientista social.

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